Um é tudo, tudo é um.

Setembro 4, 2007

Sargento Smith

Arquivado em: Spirit of Angel — anjodark @ 9:55 pm

Eu tinha 19 anos quando me alistei. Lembro–me bem daquele dia, meu pai era velho e estava de cama, minha mãe já havia falecido há muito tempo, eu nem cheguei a virar adolescente quando isso ocorreu. Eu estava indignado por estar sempre sendo caçoado por alguns colegas de infância que agora trabalhavam em suas cooperativas e empresas de suas famílias e eu nunca tirava notas boas em nada no colégio. Me alistei no Exército dos Estados Unidos da América.

Passei um rigoroso tempo de treinamento acordando às cinco da manhã todos os dias, pulando poços de lama que muitas vezes cai dentro, e para minha surpresa, continham restos de animais mortos e sabe Deus mais o que. Tive diversas instruções de como matar o inimigo em milhares de equipamentos do exército, inclusive uns secretos de poder devastador que meus superiores hierárquicos insistiam em dizer que só seriam usados em necessidade extrema.

Três anos e meio se passaram desde que eu entrei e saí de lá, eu tinha a marca “US Army” em minhas roupas e meu físico duplicara de tamanho e resistência. Fumava cigarros caros e só bebia cervejas de primeira linha, eu estava na reserva e agora era sargento, com nome de guerra “Smith”. Meus 22 anos foram felizes, eu posso dizer! Eu trabalhava em uma firma terceirizada de segurança para um banco de fama internacional no centro de Nova York, logo depois virei superintendente da empresa e comprei algumas ações do banco. Meus lucros financeiros estavam médios, mas para mim eram suficientes, minhas ações estavam crescendo e pretendia mais tarde montar uma lojinha de suvenires para os turistas que vinham de todas as partes ver uma cidade tão grande e importante como Nova York.

Fui atacado pela paixão quando estava observando a banca de jornal de fronte ao “Café” que eu costumava usar internet para participar de fóruns de discussão virtuais. A manhã cinzenta de Nova York nunca foi tão bonita pra mim, ela iluminava o rosto da minha futura esposa, mesmo sem ela saber disso. Eu estava determinado a fazer qualquer coisa para estar junto dela. Nunca fui bom em cortejar uma dama, também minhas experiências amorosas ou sexuais tinham sido com meninas aventureiras de festas que os rapazes de minha guarnição davam de vez enquanto. Eu não sabia o que dizer, ela era linda, sem dúvida, e eu já havia falado com ela uma vez no banco, possivelmente ela não se lembraria de mim com um terno preto e walk talk no ouvido. Minha cidadezinha do interior do Texas me deu saudade agora… Queria poder estar lá e fazer as coisas simples do jeito que eram quando criança, se um rapaz gostava de uma moça a gente simplesmente convidava um pra ir ao baile da escola e lá se beijássemos íamos para o cinema em outros encontros, e depois anunciávamos para os pais que estávamos namorando e pedíamos permissão para continuar, é claro.

Nada fiz… O dia se passou e no outro que seguiu ela apareceu mais uma vez, agora passei a observar as revistas que ela comprava e para minha surpresa eram de culinária e alguns tablóides mesquinhos. Comprei o que ela costumava comprar e cheguei junto dela quando ela veio no quinto dia de espionagem que eu estava levando. Comecei a comentar de modo indignado uma noticia sobre laboratórios secretos no interior do Texas, era no meu estado afinal de contas! Então ela veio me perguntar algo:

– Você é do Banco não é? – ela tinha algo diferente na voz, parecia um misto de dúvida com descontração. Poderia ser alucinação minha. Afinal aquele sorriso branco era tão lindo… Meu coração disparou.

– S–sim! Sou da segurança e já nos falamos daquela vez que eu estava saindo para o almoço e você deixou cair suas bolsas, então eu ajudei… – eu nem me toquei que ela era meio atrapalhada mesmo.

– Isso mesmo. Hãn, eu acho que você não deveria ler estas coisas sabe! – agora que ela disse isso eu fiquei injuriado, mas que diabos ela tá fazendo? Ela que lê essas coisas!

– Na verdade eu não gosto disso… – taquei o tablóide no lixo e comecei a andar devagar a acompanhando.

– Eu também não gosto… – ela segurava ainda o dela e ria como uma criança feliz. – Mas é que mamãe adora e ela está de recuperação de uma cirurgia que fez, faz oito dias que ela saiu da enfermaria e foi para os quartos. Amanhã já sai de alta, mas ela lê essas coisas… Então eu levo pra ela.

– Ah sim, entendo… – me sentia um lixo agora. – Estimo que ela fique bem! Eu perdi minha mãe e quando era criança e meu pai a pouco tempo. Você deve gostar muito dela, não?

– Sim… – estávamos de frente para o Hospital e quase era hora de eu ir para o trabalho. –… Vivemos sozinhas por muito tempo e nunca vi o desgraçado do meu pai então ela e outros parentes são o que tenho.

– Eu compreendo… Me perdoe mas agora eu vou ter que trabalhar, preciso ir. Obrigado pela conversa!

– Eu que agradeço, não conheço ninguém nessa cidade de loucos, só vim para cá fazer companhia a minha mãe na operação e logo depois voltaremos para onde vimos.

– Qualquer coisa sabe onde me achar. Podemos jantar juntos hoje se quiser…

– Eu Quero. – ela sorria de um jeito que eu fiquei envergonhado.

Incrivelmente eu tinha um encontro. E estava feliz com isso. Muito mesmo!

Ela veio me encontrar no fim do expediente do Banco e ela nem sabia meu nome, e eu não sabia o dela. Fomos nos identificar na frente do restaurante e eu soube que o nome “Lucy” para mim agora teria outro significado além do seriado de TV. Comemos pouco e eu descobri que ela tinha mesmos gostos musicais e também sobre comida que eu, nosso papo fluía bem e quando percebemos estávamos nos beijando à frente do hotel onde ela estava. Na outro dia ela ia embora com a mãe, como eu ia ficar sem ela? Não dava mais… Não suportava essa idéia, mesmo que ela estivesse brincando com meus sentimentos eu estava amando aquela mulher. Ela me disse que me ligaria no outro dia de manhã, e eu esperei. Ela ligou! Veio me dizer que a mãe por estar de alta agora queria ver o Central Park e outras coisas na cidade, e então ficaria mais dois dias. Sim, agora eu ia pedir para esclarecermos nosso relacionamento e deixarmos tudo a sério, quem sabe até voltar para a minha cidade natal, afinal tenho uma graninha guardada. Nossa! Eu estava louco! Foi tudo com impulso! Deixei meu emprego, namorei a sério com aquela mulher, voltei a minha cidade, ela morava em outro estado próximo e a visitava sempre nos fins de semana, e depois noivamos e findamos casados morando na minha cidade.

Eu estava muito bem naquela manhã de sábado tomando meu suco de laranja que Lucy “preparava” sempre direto da caixinha industrializada. Ela no meu colo me mostrando umas fotos dos familiares dela quando a campainha tocou, era um homem de farda verde de gala cheia de medalhas, e ao olhar seu ombro vi sua graduação, era um tenente–coronel e logo bati continência. Eu estava irritado, antes dele e toda sua comitiva que incluíam tenentes e soldados. Ele em especial me dava angustia, tinha me esquecido do meu dever de reservista e agora tinha que me mandar para o Iraque em um plano louco que não foi anunciado pelo presidente ainda. Estaria sendo anunciado assim que nós estivéssemos na metade do caminho.

Aquilo me chateava, era meu dever, eles se foram, mas eu tinha que me apresentar depois de qualquer jeito. Lucy estava chorando feito louca e eu não sabia o que fazer, a abracei, disse que a amava, tinha se passado seis anos desde nosso primeiro encontro. Eu já estava com quase 30 anos. Com trinta eu já podia recusar os chamados do exército, mas agora eu tinha que ir, e ela insistia em pedir pra que eu não fosse já que rapazes morriam todos os dias no Afeganistão com o problema que ocorreu com o World Trade Center e nosso presidente tinha enviado tropas para brincar de pique–esconde lá. Setembro se tornou um mês maldito e bandas de jovens roqueiros como o “Green Day” hoje tocam canções melancólicas como: “Wake me up when september ends” e eu me emociono.

Eu não queria ir, mas fui. Minha ida foi dolorosa, mais uma vez eu vi aqueles rostos novos de soldados que deveriam estar com suas namoradas – e eu com minha esposa – agora com fuzis em mãos indo para um lugar qualquer onde todos tinham suas vidas já formadas e tranqüilas na busca de um ditador autoritário que segundo a ordem nacional ele deveria ser morto e seu império destruído. A guerra foi declarada, bombardeios e fogo–amigo contra minha tropa foram executados, eu feri minha mão esquerda, estava indo de volta a base por meio de morfina, já tinha se passado um ano naquele inferno de areia quente com gente berrando pra todos os lados e mulheres com seus filhos no colo falando um idioma que eu não entendia, mas pela suas almas eu sabia que pediam ajuda e amaldiçoavam–nos.

Em campo de batalha, cheguei a matar muitos arruaceiros e guerrilheiros revolucionários que apoiavam Saddam. Minhas balas tinham caminho certo, nos corpos daqueles homens e na alma da família desestruturada deles, nas viúvas que eu fazia sem dó e nem piedade querendo que a minha doce Lucy não fosse uma viúva também. Em um dos meus comandos de ataque, chegamos a destruir uma base militar vazia, mas os rapazes que deveriam estar jogando vídeo–game ou comendo pizza com os colegas, estavam animados em atirar em tudo e mataram algumas mulheres que corriam e umas crianças medrosas. Estava tudo fora de controle, os gastos estavam muito altos, eu sabia que aquela guerra não traria nada, mas nosso presidente chegou até a nos visitar no dia de ações de graça trazendo um peru enorme. Eu queria que ele enfiasse aquele Peru no rabo dele.

 

Em guerras, nós podemos enviar cartas para os familiares, mas elas são abertas e censuradas, de que adiantaria eu escrever à minha querida Lucy contando os horrores da guerra se eles editariam minha carta falando que estava tudo bem? Até os e–mails eram interceptados, mais alguns de meus rapazes fizeram blogs e flogs na internet mostrando as porcarias que a nossa nação maravilhosa estava fazendo com uma das áreas que eram o berço da civilização, a antiga Babilônia e com certas suspeitas de lugares que pertenciam ao jardim do Éden! Bastardos generais e governantes!

Acendi meu último cigarro. Olhei o céu amarelo a minha volta. Amanhã eu estava de volta, consegui sobreviver a este inferno. Acabou minha época e agora vinha outro sargento me substituir. Eu estava aliviado, e dessa vez eu odiava o exército, eles tinham me acolhido e ganhei uma boa vida em Nova York, mas depois que voltei para o Texas com minha mulher me tiraram tudo, cobrando pelos recursos que me davam. Nada me importava mais, eu agora iria ver a Lucy, ia beijá–la, fazer amor com ela e dormir abraçado com minha amada.

Voltei à minha cidade, uma coisa estranha ocorreu por ali. Havia novos prédios, mas poucas casas, as ruas sempre vazias e o meu Jeep do exército que eu peguei com um amigo do depósito para devolver nunca, estava dando terror a meus antigos conterrâneos. Parei em frente de casa e me deparei com uma placa de “Vende–se”. Mas que diabos aconteceu aqui? Eu cheguei a berrar isso e não havia nem vizinhos para me responder. Fui para o bar que costumava ir, até que enfim uma pessoa conhecida! Mas ela não me reconheceu, era a garçonete Silvia, ela estudou comigo no colégio e era namorada de um outro conhecido. Mas eu queria saber onde estava minha mulher, apenas isso. As cartas censuradas que enviei para dizer que estava vivo estavam todas na caixa do correio.

– Silvia… Tudo bem? – ela achou estranho, me olhou umas duas vezes e depois abriu um sorriso.

– Joseph! Você voltou! – ela colocara logo uma dose do wisky na minha frente e se debruçara de frente pra mim.– Você está inteiro? Foi ferido? Não tínhamos noticias suas… – ela parecia preocupada de verdade.

– A mim não importa o que aconteça, eu quero saber da Lucy, onde ela está? – eu estava nervoso e tomei o wisky todo de uma vez, ele nunca desceu tão quente na minha vida.

– Eu acho que… Você realmente não sabe… – ela deixou de me olhar nos olhos e baixou a cabeça ficando com tom de voz triste.

– … – apenas esperei.

– Lucy morreu com o vírus há oito meses. Ocorreu uma explosão estranha em um laboratório que só soubemos que existia depois do acidente aqui perto. Ele tinha certas configurações de etnia, e de alguma forma, metade da cidade morreu com sintomas parecidos com o do HIV, tirando todas as imunidades das pessoas que eram mestiças com certas etnias. Eu não sei bem lhe explicar, o governo quis abafar o caso porque aparentemente o laboratório era pra armas químicas… – Silvia chorava em silencio.

– Eu… Não… ACREDITO!!! – bati no balcão furioso e chutei a porta do bar, corri feito um louco para o lago e lá comecei a chorar como não chorava a décadas. Não queria ver ninguém na minha frente, nada, ninguém!

Então voltei para casa inconsolável, a mobília estava coberta com panos brancos, minhas coisas certamente haviam sido saqueadas, não tinha mais nada pessoal. Liguei para a corretora que vendia minha casa e eles confirmaram a história, me devolveram a casa com escritura e tudo mais para mim, o dono. Mas eu não podia crer naquilo. Fui até o cemitério e vi vários túmulos de dezenas de pessoas que morreram recentemente. E lá ao fundo eu vi o da minha querida Lucy, tinha muitas flores, ela era adorada pelas crianças que ela dava aula dominical na igreja. E então ajoelhado lá na frente eu chorei mais uma vez vendo uma foto que alguém levara dela com aquele sorriso que me fez ficar alucinado quando ela aceitou meu convite de jantar.

Escrevi essa minha carta de despedida mostrando a minha indignação com a minha nação e meu exército de hipócritas que cismam em invadir paises alheios com desculpas de armas químicas e matam as esposas de soldados valorosos com as mesmas. Nada vai trazer minha Lucy. Nada. Era tudo que eu tinha. E é tudo que eu tenho! Estou agora escrevendo isso e publicando em um e–mail qualquer… Vou me suicidar em vinte minutos. Eu já fiz minhas orações e agora estou carregando a minha escopeta calibre 12. Darei um tiro debaixo do queixo para cima da cabeça, e logo–logo estarei no inferno pagando pelas almas daqueles que matei, e minha tristeza e dor e a perca de Lucy são parte disso. Adeus a todos e nunca deixem de dar valor a coisas simples da vida e amar o máximo que puderem aqueles que são importantes, obrigado aos meus amigos, sigam seus sonhos e sejam felizes, pois eu já fui feliz um dia e agora não sou mais. Fiz de tudo pela pátria e ela tirou tudo de mim, não acredito mais neles, pois eles tiram a felicidade daquela gente do deserto assim como tiraram a minha. Não há vencedores, esta é uma guerra de pirro. Adeus.

Edmilson Ferreira Costa, 22 de outubro de 2005

E o USA até hoje não retirou suas tropas do Iraque, esta história é fictícia criada por mim, mas coisas semelhantes ou até piores ocorrem todos os dias quando uma família perde um ente querido em meio a um conflito imbecil de ninguém sabe bem a origem.

Quanto tempo mais?

4 Comentários »

  1. Muito bom Edo-kun, parabens !
    É uma historia ficticia, mas por outro lado bastante realista.
    Todos os dias uma mulher perde seu marido , todo dia uma criança fica orfã, todo dia uma mãe perde seu filho. Devemos agradecer à Guerra, ou pior aos que fazem a Guerra, ou seja nós, os humanos.
    Desta vez o Bush é o culpado, mas em geral está no instinto do ser humano ser ambicioso, e a ambição é o que faz a guerra, dentre varias outras coisas.
    Voltamos a estaca zero, aquela antiga Lei da Natureza :
    O Mais Forte Sobrevive.
    Um dia ainda teremos uma guerra a pau e pedra por conta do mal que nós causamos ao nosso próprio mundo,estamos regredindo, é só olharmos a nossa volta e poderemos reparar isso…

    Parabens edo-kun,vc escreve mto bem, estou torcendo apra lançar logo seu livro, quero ser uma das primeiras pessoas a ler ^^

    Te adoro !

    Comentário por Lulu — Setembro 5, 2007 @ 12:37 am

  2. WOOOOOOW
    Já te disse algumas vezes que adoro esse texto XD
    a situação foi tão bem descrita que eu cheguei a pensar inclusive que era real hehe

    Parabéns =D

    Comentário por kaochi — Setembro 5, 2007 @ 12:56 am

  3. You already know what I thought..
    breath-taking, amusing…
    xD

    Comentário por newrob — Setembro 8, 2007 @ 7:40 pm

  4. quero um cite sabendo q me alistem

    Comentário por virgilio a e silva — Maio 20, 2008 @ 7:00 pm


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